Neste momento estou a escrever num teclado marroquino, o que, por si so ja é uma aventura. as correcções ortográficas, ficarão para o regresso a Portugal. as letras estão por outra ordem e acentos nao existem.
Experiências em Marrocos
1.
O TransitoEscrever sobre o transito em Marrakeche exige um poder de síntese extraordinário. O assunto daria para escrever um texto de tal modo extenso, que o Circulo de Leitores o publicaria em varios volumes de capa grossa.
Resolvi escrever este texto no momento em que vi um rapaz levar com um retrovisor de uma carrinha na cabeça. Nesse momento, ajeitei a cadeira, esfreguei as mãos e preparei-me para ouvir uns palavroes em marroquino, que estava deserto por aprender. Mas não. Tudo prosseguiu na azafama tranquila (a contradição é voluntária) de Marrakeche: o pendura da carrinha ajeitou o retrovisor, o rapaz esfregou a cabeça e prosseguiram, cada um para seu lado. Pergunto-me quantos galos terá a cabeça de um marroquino...
Quando cheguei a Marrakeche, procurei aplicar-lhe a máxima que aplico a minha secretaria (e ao meu quarto em geral): uma confusão organizada.
A verdade é que o transito em Marrakeche, de confuso tem tudo e de organizado tem muito pouco (não digo que não tem nada, porque ainda não vi nenhum acidente).
O transito na cidade faz-me lembrar aqueles vídeos que circulam na internet do transito na Índia: os semáforos não passam de desperdício de electricidade e as passadeiras não passam de desperdício de tinta.
Em Marrakeche não se trava. Desacelera-se e buzina-se. Se alguma vez quiser comprar um travão usado, aconselho que o faça numa oficina marroquina. Imagino o anuncio: "vende-se travão por estrear de carro marroquino com 20 anos. Compre já (só não sei é para que...)".
Se é usual dizer-se que as pessoas se revelam quando estão ao volante, então os marroquinos sao malucos.
Aconselho-o a trocar a esplanada com uma bela vista para um jardim, por uma com uma inesquecível vista para uma estrada, dentro da medina.
Os táxis raramente param para receber os passageiros: desaceleram e os outros passageiros aue já seguiam dentro do táxi, apertam-se para deixar entrar os outros, que entretanto vão correndo agarrados a porta do táxi.
Os turistas, na sua doce candura, esperam na passadeira, com aquele sorriso de quem esta perdido mas não se quer preocupar. Quando se apercebem da função estritamente decorativa da passadeira, dão as mãos, olham uns para os outros e comunicam por telepatia, já que as palavras, prudentemente, estão escondidas e abraçadas, as que não estão sentadas no chão a um canto, com os braços em volta das pernas e as costas a balançar.
E la vão os turistas, sorrindo de pânico, enquanto um táxi lhes passa rente as pernas, uma mota lhes aparece de frente, em contra mão, uma carroça lhes passa junto aos cabelos, um vendedor com um carrinho de mão assobia, um rapaz que guia a bicicleta seu usar as mãos lhes da os bons dias, um autocarro tão cheio que se vêem cabeças de fora, lhes buzina a distancia, uma mota aparece em semi-contramão (esta só vai a 90°) e passa por entre os táxis e o vendedor, uns marroquinos passam-lhes por cima dos pés, agarrados a porta do táxi, uma pequena mota modelo Famel Sharan, que transporta toda a família, lhes buzina, pelo sim pelo não e eu, tranquilamente bebo o meu chá (o whisky dos marroquinos).
Por ironia, la se vão vendo algumas escolas de condução, que hoje devem servir de museu.
. Os autocarros-carreira
Se quiser conhecer Marrocos, com tempo contado e levar um itinerário definido, o carro é a melhor opção.
Mas, se quiser incluir na sua viagem alguns imprevistos e entrar verdadeiramente na cultura marroquina, os transportes públicos, que cobrem praticamente todo o pais, cumprem essa função.
Os autocarros equivalentes as nossas carreiras, são tudo o que se espera quando se entra em África. (só faltou a galinha em cima da cabeça. um dia...).
Aqui, depois de bater palmas uma ou duas vezes, os passageiros são deixados onde lhes convém, que por vezes é literalmente no meio do nada.
A viagem de Essaouira para Marrakeche, foi memorável. Assim que se chega a estação, aparece alguém que nos encaminha para o autocarro certo. Vendem-se mais bilhetes que os lugares sentados que o autocarro disponibiliza e o resultado, neste caso, foi que os miúdos escuteiros foram em pe mais de 3 horas e quase 50°.
Onde a estrada acaba, a terra começa, parece ser o mote em Marrocos, o que torna a viagem mais extensa do que seria de prever, já para não falar dos atrasos.
. O autocarro / carro de mercadorias Bedford cor-de-laranja
Depois de partir de Tinerhir a bordo de um desses autocarros-carreira em que éramos os únicos estrangeiros, e depois de uma serie de táxis que nos iam esperando, jq com 3 ou 4 passageiros la dentro, no caminho para Erg-Chebbi, esperava-nos a ultima boleia.
Nunca cheguei a saber o nome do condutor, pelo que vou, carinhosamente trata-lo por El-der.
Imagine-se próximo do deserto. Não se vê um obstáculo. Agora imagine-se o que é conduzir o diq todo debaixo de mais de 50°. é difícil não adormecer.
O momento que o nosso amigo El-der escolheu para adormecer ao volante, foi exactamente ao aproximar-se do único obstáculo que existia: uma placa que, não sei o que dizia, mas dava p efeito visual de uma rotunda no meio de nenhures. Nada que uma gargalhada da rapariga que seguia ao seu lado não resolvesse.
2.Conversa com marroquinosDialogo habitual:
- English? Espanhol? Italiano? Français?
- Português.
- Ah... obrigado! Luís Costa! Figo! Cristiano Rolando!
- Ronaldo.
- Oui, Rolando! Lisboa? Porto? Braga?
- Lisboa.
-Ah... Benefica? Sporting Lisboa?
-Benfica.
-Ah... conheces o Sktiui?
- Nos dizemos Sektioui. Sim, jogou no Porto acho que foi para os Emirados.
-Ah... muto dinero! (também falam o nosso portunhol). Obrigado amigo!
Excerto de uma conversa com uma marroquina que ainda falava menos frances que eu:
Ela: - Il fait chaud! - esta calor
- Oui, très chaud! - sim; muito calor
(pausa para suspirarmos em conjunto, por causa do calor e depois de uma intermitente conversa, que, por dificuldades de comunicação, acabava sempre nesse assunto internacional que é a meteorologia)
- Uff... très chaud...
- Oui, très chaud. Uff...
(pausa para procurar novo assunto)
- Je suis portugais.
- Oui?
-Oui.
- Il fait chaud en France?
(pausa para resignação)
-Oui, très chaud...
- Très chaud...
-Oui, très chaud...
- Uff...
-Uff...
.Diz o marroquino ao João (qualquer coisa deste género):
- Rafat, rbat, rat.
Responde o João (qualquer coisa deste género):
- Srit.
.Diz o marroquino, nas escadas do hotel, com um enorme sorriso: (qualquer coisa deste género)
- salamalek, farfec, shrek
Respondo eu (qualquer coisa deste género):
- shrak.
. Diz o pedinte num tom insultuoso, depois de lhe recusar esmola (qualquer coisa deste género):
- Shrabat! Rarrarra shrabat!
Responde eu (exactamente assim):
- Passa por cima!
3. Fazer tempoFazer tempo em Marrocos é uma verdadeira arte! Há os que dormem a sombra, os que estão deitados a sombra, ajoelham-se para urinar e voltam a deitar-se e os que se encostam a um muro e, volta e meia vão olhando para o relógio ate que vão a sua vida.
Tudo isto enquanto as mulheres trabalham.