terça-feira, 28 de Julho de 2009

Erg-Chebbi, Marrocos

O Sahara como chão e como horizonte. Podia descrever assim a experiência vivida em Erg-Chebbi, no Merzouga, deserto do Sahara. Seria uma descrição redutora, mas sucinta o suficiente para honrar e retratar o ponto (mais) alto da viagem.
Como tantas boas experiências da nossa vida, surgiu por acaso. O aleatório sempre me fascinou.
Em Marraquexe queríamos comprar bilhete de autocarro para Ouazazate, de onde seguiríamos para Zagora, mas já não havia lugares disponíveis. A conselho do vendedor, comprámos bilhete para Tinerhir, de que nunca tínhamos ouvido falar, mas que era perto de Erfoud, cidade onde tencionávamos procurar uma excursão pelo Sahara, de preço reduzido.
À chegada a Tinerhir, na paragem do autocarro, estava Mohammed em busca de turistas. Éramos os únicos.
Indicou-nos um hotel (bastava atravessar a rua) e, de seguida, acompanhou-nos num chá, enquanto nos mostrava fotografias da sua excursão no Sahara. Reconheci a sua cara e as fotografias do site do couchsurfing, em que nunca me cheguei a inscrever. Acordámos um preço, mais alto que o orçamento diário para a viagem, mas razoavelmente barato, para a experiêcia que se avizinhava.
No dia seguinte, partimos na companhia do Mohammed. De manhã passámos pelo desfiladeiro do Todra e seguimos para o deserto. Pelo autocarro e pelos táxis que fomos apanhando, facilmente percebemos que não éramos os clientes-tipo destas expedições e que Mohammed tinha adaptado a viagem ao preço que pagámos. O autocarro era nitidamente para uso local e os táxis já tinham mais 3 ou 4 passageiros lá dentro à nossa espera. Não podia ter ficado mais contente: um cheirinho à verdadeira Àfrica, antes da experiência mais turística - na acepção dispendiosa e excursionista da palavra - de toda a viagem.
Ao fim da tarde, partimos do hotel da família do Mohammed, cada um no seu dromedário, em caravana, com as dunas alaranjadas e inesquecíveis a rodear-nos. Uma paragem para ver o pôr-do-sol e lá seguiu a caravana para o acampamento berbere onde passámos a noite, depois de jantarmos uma deliciosa tagine e de sermos brindados com música africana ao vivo.
Na manhã seguinte, já de volta ao hotel, todos os turistas partiram de jipe, com um guia ao volante. Todos, à exepção de nós, tugas com muito orgulho, que passámos o dia à espera da nossa boleia para Erfoud: a carrinha cor-de-laranja, que transportava mercadorias para os vários hotéis da zona e levava os pés-rapados (não hão-de ser muitos, presumo), assumindo funções de autocarro.
Durante esse dia de espera, conversámos com o Hassan, que eu também reconhecera do site do couchsurfing, enquanto ele nos ia oferecendo águas, chás, amendoins e azeitonas. A hospitalidade marroquina no seu melhor! Absolutamente inesquecível!
Íamos falando de tudo. O Hassan perguntava-nos se em Portugal, com as suas roupas berberes e, sendo dono de um hotel, as mulheres lhe iam cair aos pés e nós lá lhe íamos explicando que, para sorte da estabilidade matrimonial, as portuguesas são mais de nos cair nos braços depois de um longo processo de conhecimento mútuo do que de cair logo aos nossos pés, à primeira vista. Perante a sua cara de desalento, lá lhe explicámos que há sempre excepções...
E o que dizer do Hassan a ouvir a versão dos Resistência de "Não sou o único" no meu MP3, tentando acompanhar o ritmo na língua universal que é a dos murmúrios? Memorável! Mais uma amizade fugaz, mas ao mesmo tempo duradoura, que faz parte do encanto de viajar.





A nossa boleia


Hassan


Contactos úteis:

Hassan:

http://www.couchsurfing.org/mapsurf.html?SEARCH[skip]=5&view=detail&sid=f856386be36c90df54323829a8717843

telefones: 00212 667 41 3131
002 12 642 09 5779

Hsain_berber@hotmail.com
Hsain_Merzouga@yahoo.com

Marraquexe, Marrocos

Em Marraquexe comprovei a famosa hospitalidade marroquina. Todas as noites, no café de esquina do hotel onde estava, aparecia um marroquino diferente para conversar comigo.
Sorriam quando lhes dizia que sou português. Falávamos da influência que ambos os países tiveram um no outro: eu falava-lhes das cidades do sul de Portugal, cujo nome começa por "Al" e da burocracia exasperante e eles retribuíam com as construções portuguesas nas cidades costeiras de Marrocos. Fez falta a Portugal um Livingstone, que desbravasse o interior dos países por onde os portugueses foram passando.
As conversas eram regadas a chá e tinham como banda sonora as buzinas dos carros e as moedas que os vendedores de cigarros avulsos agitavam para se fazer notar.
Todas as noites, passava o mesmo vendedor de ovos cozidos, os mesmos vendedores de cigarros e as três miudinhas, de olhar angélico, que deixavam um papel escrito em árabe, que facilmente depreendi que servia para pedir dinheiro, e depois os recolhiam, raramente levando qualquer moeda.
Deambular em Marraquexe é fácil: a cidade é plana e tem vários pontos altos (como os minaretes), que servem de referência. Depois de se conhecer os pontos mais famosos da cidade, nada como deixar o mapa no hotel e partir para o desconhecido. Só assim se descobrem os bairros (sem a conotação negativa geralmente associada à palavra), jardins e pessoas que fazem parte da Marraquexe que não vem nos guias.
Uma cidade com o trânsito caótico de Marraquexe, tinha que ter uma praça igualmente caótica, como é a Praça Jemaa el-Fna.
Encantadores de serpentes, contadores de histórias, vendedores de sumos de laranja (deliciosos e que custam o equivalente a 30 cêntimos), aguadeiros, bancas de comida e proprietários de macacos acorrentados(imagino como serão tratados) com os quais os turistas tiram fotografias, dão cor, som e azáfama à Praça. Uma expressão em francês que é útil para utilizar nesta praça, é "il manque"- "falta", que terá que usar várias vezes ao receber o troco, que raramente vem certo à primeira, segunda ou mesmo terceira vez.
Entrando pela praça, temos os souks os mercados marroquinos, onde se vende de tudo, embora a preço inflacionado para os turistas. Aqui regateia-se tudo (outra influência, embora mais moderada que os marroquinos deixaram em Portugal). Se no fim da venda, o vendedor lhe apertar a mão com um enorme sorriso, é porque não regateou o suficiente. Geralmente vem nos guias que os marroquinos não negoceiam com mulheres, o que não é verdade, pelo menos no caso das turistas.
Utilizando sempre os chinelos como único meio de transporte, cheguei à Hivernage, uma zona de luxo, turística, de grande beleza. De qualquer maneira, não a trocava pela Medina, mais genuinamente marroquina, embora alterada pela (e para a) presença dos turistas.
Creio que o encanto de Marraquexe está no seu caos - mais acentuado no interior da Medina - e na azáfama. Também Marraquexe é, adaptando as palavras de Frank Sinatra, "the city that never sleeps", a cidade que nunca dorme.
As marroquinas já vão mostrando mais o corpo, cada vez mais cosmopolitas, segundo me foi explicado, por influência do rei Mohammed VI, que celebra o seu 10º ano de trono e que vai defendendo a aproximação da vida da mulher à liberdade da vida do homem.


segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Experiencias em Marrocos

Neste momento estou a escrever num teclado marroquino, o que, por si so ja é uma aventura. as correcções ortográficas, ficarão para o regresso a Portugal. as letras estão por outra ordem e acentos nao existem.

Experiências em Marrocos


1. O Transito

Escrever sobre o transito em Marrakeche exige um poder de síntese extraordinário. O assunto daria para escrever um texto de tal modo extenso, que o Circulo de Leitores o publicaria em varios volumes de capa grossa.
Resolvi escrever este texto no momento em que vi um rapaz levar com um retrovisor de uma carrinha na cabeça. Nesse momento, ajeitei a cadeira, esfreguei as mãos e preparei-me para ouvir uns palavroes em marroquino, que estava deserto por aprender. Mas não. Tudo prosseguiu na azafama tranquila (a contradição é voluntária) de Marrakeche: o pendura da carrinha ajeitou o retrovisor, o rapaz esfregou a cabeça e prosseguiram, cada um para seu lado. Pergunto-me quantos galos terá a cabeça de um marroquino...
Quando cheguei a Marrakeche, procurei aplicar-lhe a máxima que aplico a minha secretaria (e ao meu quarto em geral): uma confusão organizada.
A verdade é que o transito em Marrakeche, de confuso tem tudo e de organizado tem muito pouco (não digo que não tem nada, porque ainda não vi nenhum acidente).
O transito na cidade faz-me lembrar aqueles vídeos que circulam na internet do transito na Índia: os semáforos não passam de desperdício de electricidade e as passadeiras não passam de desperdício de tinta.
Em Marrakeche não se trava. Desacelera-se e buzina-se. Se alguma vez quiser comprar um travão usado, aconselho que o faça numa oficina marroquina. Imagino o anuncio: "vende-se travão por estrear de carro marroquino com 20 anos. Compre já (só não sei é para que...)".
Se é usual dizer-se que as pessoas se revelam quando estão ao volante, então os marroquinos sao malucos.
Aconselho-o a trocar a esplanada com uma bela vista para um jardim, por uma com uma inesquecível vista para uma estrada, dentro da medina.
Os táxis raramente param para receber os passageiros: desaceleram e os outros passageiros aue já seguiam dentro do táxi, apertam-se para deixar entrar os outros, que entretanto vão correndo agarrados a porta do táxi.
Os turistas, na sua doce candura, esperam na passadeira, com aquele sorriso de quem esta perdido mas não se quer preocupar. Quando se apercebem da função estritamente decorativa da passadeira, dão as mãos, olham uns para os outros e comunicam por telepatia, já que as palavras, prudentemente, estão escondidas e abraçadas, as que não estão sentadas no chão a um canto, com os braços em volta das pernas e as costas a balançar.
E la vão os turistas, sorrindo de pânico, enquanto um táxi lhes passa rente as pernas, uma mota lhes aparece de frente, em contra mão, uma carroça lhes passa junto aos cabelos, um vendedor com um carrinho de mão assobia, um rapaz que guia a bicicleta seu usar as mãos lhes da os bons dias, um autocarro tão cheio que se vêem cabeças de fora, lhes buzina a distancia, uma mota aparece em semi-contramão (esta só vai a 90°) e passa por entre os táxis e o vendedor, uns marroquinos passam-lhes por cima dos pés, agarrados a porta do táxi, uma pequena mota modelo Famel Sharan, que transporta toda a família, lhes buzina, pelo sim pelo não e eu, tranquilamente bebo o meu chá (o whisky dos marroquinos).
Por ironia, la se vão vendo algumas escolas de condução, que hoje devem servir de museu.

. Os autocarros-carreira

Se quiser conhecer Marrocos, com tempo contado e levar um itinerário definido, o carro é a melhor opção.
Mas, se quiser incluir na sua viagem alguns imprevistos e entrar verdadeiramente na cultura marroquina, os transportes públicos, que cobrem praticamente todo o pais, cumprem essa função.
Os autocarros equivalentes as nossas carreiras, são tudo o que se espera quando se entra em África. (só faltou a galinha em cima da cabeça. um dia...).
Aqui, depois de bater palmas uma ou duas vezes, os passageiros são deixados onde lhes convém, que por vezes é literalmente no meio do nada.
A viagem de Essaouira para Marrakeche, foi memorável. Assim que se chega a estação, aparece alguém que nos encaminha para o autocarro certo. Vendem-se mais bilhetes que os lugares sentados que o autocarro disponibiliza e o resultado, neste caso, foi que os miúdos escuteiros foram em pe mais de 3 horas e quase 50°.
Onde a estrada acaba, a terra começa, parece ser o mote em Marrocos, o que torna a viagem mais extensa do que seria de prever, já para não falar dos atrasos.

. O autocarro / carro de mercadorias Bedford cor-de-laranja

Depois de partir de Tinerhir a bordo de um desses autocarros-carreira em que éramos os únicos estrangeiros, e depois de uma serie de táxis que nos iam esperando, jq com 3 ou 4 passageiros la dentro, no caminho para Erg-Chebbi, esperava-nos a ultima boleia.
Nunca cheguei a saber o nome do condutor, pelo que vou, carinhosamente trata-lo por El-der.
Imagine-se próximo do deserto. Não se vê um obstáculo. Agora imagine-se o que é conduzir o diq todo debaixo de mais de 50°. é difícil não adormecer.
O momento que o nosso amigo El-der escolheu para adormecer ao volante, foi exactamente ao aproximar-se do único obstáculo que existia: uma placa que, não sei o que dizia, mas dava p efeito visual de uma rotunda no meio de nenhures. Nada que uma gargalhada da rapariga que seguia ao seu lado não resolvesse.


2.Conversa com marroquinos

Dialogo habitual:

- English? Espanhol? Italiano? Français?
- Português.
- Ah... obrigado! Luís Costa! Figo! Cristiano Rolando!
- Ronaldo.
- Oui, Rolando! Lisboa? Porto? Braga?
- Lisboa.
-Ah... Benefica? Sporting Lisboa?
-Benfica.
-Ah... conheces o Sktiui?
- Nos dizemos Sektioui. Sim, jogou no Porto acho que foi para os Emirados.
-Ah... muto dinero! (também falam o nosso portunhol). Obrigado amigo!


Excerto de uma conversa com uma marroquina que ainda falava menos frances que eu:

Ela: - Il fait chaud! - esta calor
- Oui, très chaud! - sim; muito calor

(pausa para suspirarmos em conjunto, por causa do calor e depois de uma intermitente conversa, que, por dificuldades de comunicação, acabava sempre nesse assunto internacional que é a meteorologia)

- Uff... très chaud...
- Oui, très chaud. Uff...

(pausa para procurar novo assunto)

- Je suis portugais.
- Oui?
-Oui.
- Il fait chaud en France?

(pausa para resignação)

-Oui, très chaud...
- Très chaud...
-Oui, très chaud...
- Uff...
-Uff...

.Diz o marroquino ao João (qualquer coisa deste género):

- Rafat, rbat, rat.

Responde o João (qualquer coisa deste género):

- Srit.

.Diz o marroquino, nas escadas do hotel, com um enorme sorriso: (qualquer coisa deste género)

- salamalek, farfec, shrek

Respondo eu (qualquer coisa deste género):

- shrak.


. Diz o pedinte num tom insultuoso, depois de lhe recusar esmola (qualquer coisa deste género):

- Shrabat! Rarrarra shrabat!

Responde eu (exactamente assim):

- Passa por cima!


3. Fazer tempo

Fazer tempo em Marrocos é uma verdadeira arte! Há os que dormem a sombra, os que estão deitados a sombra, ajoelham-se para urinar e voltam a deitar-se e os que se encostam a um muro e, volta e meia vão olhando para o relógio ate que vão a sua vida.
Tudo isto enquanto as mulheres trabalham.

sábado, 16 de Maio de 2009

novo site

o servidor chama-lhe website mas por enquanto ainda só encontrei características de blog.
já passaram mais de dois anos da criação deste blog e a evolução do blogger pouco se tem notado. para mudar a imagem do outrascoordenadas, resolvi muda-lo de casa. esta é a nova morada:

http://outrascoordenadas.webs.com/

as mudanças ainda vão ser um processo longo, devido à falta de tempo, pelo que poderão encontrar aqui no blogger a "mobília" velha do outrascoordenadas, sendo que o novo site terá uma decoração mais moderna, mantendo as janelas viradas para o Mundo, à semelhança do que acontece na velhinha residência blogger.
o novo site terá como grande novidade a tradução dos textos para inglês. não será uma tradução à letra, porque as palavras não designam forçosamente o mesmo nas duas línguas e há expressões que só fazem sentido em português. são mais de 20.000 os viajantes que passaram aqui por esta morada no blogger, de 72 países diferentes, sendo os nossos irmãos brasileiros os que mais se hospedaram aqui. pela multinacionalidade dos visitantes, a tradução pareceu-me um passo natural para corresponder às expectativas dos meus hóspedes.
fica feito o convite, que por enquanto será mais uma espécie de "visite o andar modelo", já que as "obras" ainda vão demorar um bocado.
boas viagens!

domingo, 10 de Maio de 2009

Belfast, Irlanda do Norte

Antes de começar, importa explicar a razão de ter estado algum tempo afastado do blog. A diletância é a preguiça dos poetas e eu, não sendo poeta, sou diletante.

Cheguei a Belfast, depois de alguns dias numa Dublin pouco interessante e que deixa a ideia de que o seu topónimo devia mudar para Guiness City, tal a dependência da famosa marca de cervejas para manter a cidade animada, dinâmica e atractiva.
Dá a ideia que Belfast fez um pacto com as nuvens e que, depois de um longo processo de negociação chegaram a um acordo: só chove de dois em dois dias.
Poucos dias antes, tinha havido um atentado na cidade, mais um encabeçado pelo IRA, cuja sigla é um curioso indicativo para nós, que a lemos em português.
Há uma ligação mecânica entre o estômago dos britânicos e as cadeias de fast-food. O Jamie Oliver bem se esforça para alertar para os malefícios deste tipo de alimentação mas, vemos no seu programa os paizinhos levar esse tipo de comida, de sabor universal - se tivermos em conta que têm o mesmo saber em Londres ou no pequeno Djibouti - à porta das escolas. A imagem de ver uma criança, ainda no carrinho, mergulhar uma batata em ketchup com a mesma naturalidade com que certamente levará a chucha à boca (ou será uma McChucha?) tem tanto de chocante como de alarmante.
Esperava encontrar Belfast do mesmo modo que há três anos encontrei Bratislava: uma cidade cinzenta, suja e destruída, que parece ainda viver em estado de sítio. A verdade é que a capital da Irlanda do Norte foi uma das mais agradáveis surpresas que uma cidade já me proporcionou. As mulheres são bem mais bonitas que as da República da Irlanda (ou terei tido sorte?) e vestem-se e comportam-se de uma forma bem mais sofisticada.
Belfast apresenta-se como um paraíso para as compras. Pois eu, que por norma entro numa loja de roupa com a mesma alegria de quem acaba de receber um belo presente de um pombo, não resisti à tentação e comprei roupa numa daquelas cadeias internacionais que também podemos encontrar em Portugal. Como se diz na gíria lusa, os preços são em conta...
Um percurso orientado por um ex-preso político, apoiante de uma Irlanda do Norte independente (o mesmo que o IRA e o Sinn Féin - "nós mesmos" na língua irlandesa - defendem, mas de um modo mais... ponderado) deixou a ideia de que o propósito político tem um peso bastante superior ao religioso, nas reivindicações dos independentistas. A retórica do guia era, obviamente, extremamente parcial mas não deixou de ser elucidativa em relação à opressão violenta, que chegou a resultar em mortes, que tem sido executada por Sua Majestade.
Imagine-se duas linhas praticamente paralelas, sendo o espaço entre elas preenchido por arame farpado, uma metáfora física para mortes, ódio e repúdio. Essas linhas paralelas são as ruas Falls Road (habitada por católicos republicanos) e a Shankill Road (dos protestantes unionistas).
Esta rivalidade sem fim à vista é a imagem de marca da cidade - a única, atrevo-me a dizer - que passa para o resto do Mundo. Mas a verdade é que encontrei em Belfast uma população extremamente afável, semelhante aos portugueses na paixão pela cerveja e pelo futebol (e mea culpa faço...), de riso constante. Posso dizer que é tão frequente ver um habitante de Belfast sorrir como vê-lo com um saco de fast-food na mão o que, problemas de obesidade à parte, acaba por ser um retrato bastante lisonjeiro.
Imagine-se que conheci um bar tender de um pub que fez erasmus (a universalidade deste início de frase...) em Portalegre, no Alentejo. Apetece dizer que o Mundo é pequeno e apetece dizer a todos os povos que vivem em ódio, que o Mundo é pequeno mas cabemos cá todos.



castelo de Belfast





Falls Road (católicos / republicanos):

"Brits out - not sell out" - uma forma muito compacta de dizer: "Britânicos fora, a nossa integridade não está à venda".







o autor dos murais anteriores, aqui a ser entrevistado enconstado à sua réplica de Guernica




Shankill Road (protestantes / unionistas):

Os murais do unionistas são em menor quantidade mas duma expressividade incrível. No canto inferior direito, as duas setas a apontar para a esquerda dizem: "Eire" (República da Irlanda) e "war" (guerra); as da direita dizem: "United Kingdom" (Reino Unido) e "peace" (paz). Note-se a figura que está desenhada em cada um dos lados das setas.
esta é uma daquelas imagens que vale mais do que mil palavras...

no canto superior esquerdo, com os número 7, 8 e 9, Shankill Road. Com os números 10, 11 e 12, Falls Road. Para ir do ponto 11 para o ponto 7, tem que se percorrer toda a rua, até à rua do lado direito que une Shankill Street e Falls Road. Fiz o teste de perguntar a um segurança de um centro comercial de Falls Road como podia ir para Shankill Street: ele pegou no mapa, muito embaraçado e nervoso, explicou o trajecto e aconselhou a não perguntar a mais ninguém durante o caminho...


segunda-feira, 23 de Junho de 2008

Viagem pelo norte de Portugal

A Natureza é muito melhor arquitecta do que o Homem. Aqui está uma maneira arriscada de começar um texto - pela conclusão. Se tivesse terminado o texto com esta frase, deixaria o leitor a pensar "Ah... que bela frase" ou "Ah... é mesmo verdade" ou, no caso dos amantes dos centros comerciais "Ah... este gajo é parvo".
Deixemos de parte as questões de estrutura do texto e foquemo-nos no essencial: a viagem. Porque, já se sabe, a extensão de um texto é inversamente proporcional ao número de pessoas que o lêem - quanto maior um texto, menos leitores terá.
Quem me conhece, sabe que sou mestre na arte de perder, esquecer e desorganizar. Sabe que sou Bastonário da Ordem dos Despistados. Quem me conhece, não ficará surpreendido se disser que os percalços começaram ainda antes da viagem (lembremo-nos que quando fiz o inter-rail, perdi a máquina fotográfica no curtíssimo espaço entre a porta da minha casa e o carro que me esperava, do outro lado da rua para me levar à estação de Santa Apolónia). Neste caso, o problema era de solução simples: bastava renovar o cartão jovem no meu primeiro destino, o Porto. Quem me conhece não ficará admirado que, renovado o cartão jovem, me tenha esquecido do BI na estação de CTT do Porto. Quem conhece as gentes do norte, não ficará admirado que a senhora dos CTT me tenha telefonado a avisar do sucedido. E pensará o leitor "tantos Quem me conhece! tanto narcisismo - este artista não escreve lá grande coisa." A repetição serve para enfatizar o meu maior medo nas viagens: eu e os meus esquecimentos.
A passagem pela Invicta, foi curta. Demasiado para a grandeza e beleza da cidade. Ficámos por uma francesinha à beira Douro e por umas fotografias, na sua maioria, ao lado de Gaia. Ficou a promessa de lá voltar com mais tempo.
O destino era Viana do Castelo, pela particularidade de oferecer uma pousada que é, ao mesmo tempo, a fragata Gil Eanes. Chegados ao destino, pouco depois da hora do almoço, é-nos informado que a recepção da pousada só abria por volta das 18.30h (e todos sabemos o que significa a expressão "por volta das..." no nosso país - é um bocado como o aviso "Volto já", nas lojas, que muitas vezes é o mesmo que dizer "escusas de cá voltar que não tens sorte nenhuma". Vista a cidade, não esperámos pela suposta hora de abertura da Pousada e seguimos para Ponte de Lima.
Magnífica, a cidade. Foi aqui que o processo de adaptação às águas frias começou. Depois de voltas e mais voltas, lá descobrimos um belo sítio para o primeiro banho da viagem: uma pequena cascata, cuja água, de acordo com os locais, "é gelada". E era mesmo... mas valeu o sacrifício e as fotografias tiradas pelos estrangeiros àquele "bando de loucos" (citando Alberto João Jardim), que se atreveu a mergulhar naquelas águas, efectivamente geladas. A descrição que vou apresentar das cidades, neste texto introdutório, será curta porque todas elas vão merecer (e não aplico a palavra em jeito de castigo, embora o leitor que não goste da minha escrita o possa pensar) uma análise mais aprofundada em textos avulsos que vou publicando aqui no blog, ao ritmo a que o sol e o calor permitirem.
Passemos então, explicada que está a brevidade com que vou escrever sobre as cidades neste primeiro texto, para o destino seguinte e aquele que mais me entusiasmava na viagem: o Gerês. Podia dizer que é lindíssimo, de um verde de nos deixar letárgicos (e tanto podia que acabei de o fazer), mas vou falar uma vez mais sobre essa maravilha que a Natureza nos proporciona, que são as cascatas. A repetição começa a reinar neste texto, bem sei, mas não é caso para menos. As águas gélidas e incrivelmente límpidas, dignas de um postal, merecem o mergulho, ainda que a custo e, uma vez mais perante a estupefacção dos turistas que nos tiravam fotos lá de cima, como quem fotografa uma tribo de estranhos costumes.
Foi pena a falta de apoio que nos foi dado no parque de campismo, deixando a nosso cargo explorar o verdejante Gerês, ao ponto de irmos procurar cascatas na Galiza, que afinal não são mais do que aqueles molha-pés que costumamos ver nas piscinas.
Serra da Peneda. O parque de campismo estava completamente vazio e montámos a tenda (daquelas que se atiram ao ar e se montam sozinhas, com o pequeno senão de serem praticamente descartáveis - a tenda foi-se degradando, ao ponto de acordarmos rodeados de aranhas e de não a conseguirmos desmontar no fim da viagem). Aqui sim, tivemos o apoio incansável do Sr. Baltazar, que gere o parque, com os seus "croquis do carago", nas palavras do próprio. Do carago ou não, foram esses croquis que nos possibilitaram explorar a Serra, dentro das limitações da resistência física e das capacidades de todo-o-terreno do jipe que o meu companheiro de viagem, o António, conduziu. Como seria de esperar, o jipe deu uma lição de resistência aos seus tripulantes.
Foi na Serra da Peneda que descobrimos que se perguntarmos aos cães Castro Laboreiros pela namorada, eles se afastam (presumo que a vida sentimental dos Castro Laboreiros não vá pelo melhor, contrariando a teoria do Mestre Pangloss, da obra Cândido, que vaticina que aconteça o que acontecer, "tudo vai pelo melhor"). Aprendemos também que tudo é uma questão de metros, porque os 200m que nos diziam faltar para um destino, facilmente se transformavam em quilómetros. Foi na Serra da Peneda que tomámos conhecimento do fenómeno, único na Europa, das Brandas e das Inverneiras, que, ainda que em extinção, significa que os pastores ocupam a sua casa no topo da serra no verão e no inverno se ficam pela sua casa no sopé, de um modo muito sucinto. Parece que os estrangeiros também gostam do fenómeno, porque até a imobiliária ERA actua na região, concedendo aos pastores uma vizinhança que provavelmente nunca esperaram e que certamente não compreendem.
O último dia dia passeio (porque a viagem, no sentido de regresso a casa foi no dia seguinte), coincidiu com os meus anos, dia 21 de Junho.
E se Pangloss acha que "tudo vai pelo melhor", então ele que se debruce sobre o que aconteceu no início do meu dia de anos: depois de quase uma hora de caminhada, acompanhados pelos guias do parque de campismo e por jovens escuteiros de Guimarães, chegámos a um magistral e recôndito lago. A pressa do aniversariante em tomar banho era tal, que foram roupas, foi máquina fotográfica, foi tudo.
Podia continuar a escrever, fingindo que o meu banho foi intencional, mas a verdade é que não foi. Aqueles avisos que encontramos nos centros comerciais (aqui fica a dedicátoria aos leitores que me chamaram parvo depois da frase introdutória do texto), a dizer "perigo: piso escorregadio", devia estar também nas pedras que abraçam o lago. Se me tivessem avisado, não tinha passado à frente dos guias, com a pressa de dar um mergulho e tinha analisado melhor o terreno, na verdadeira acepção da expressão. Depois de uma caminhada de regresso ao carro e de mais uma noite na companhia do mais diverso tipo de insectos, acordámos no domingo e rumámos a Guimarães.
De Guimarães, devo dizer que ficou uma enorme vontade de passar lá uma temporada, uma vez que apenas pernoitámos e demos uma breve volta pela Cidade Berço. No jantar de sábado, ainda aniversariante, deu-se um curioso episódio, que me obriga a concordar com Pangloss. Um senhor cantava afincadamente e enstusiasticamente os parabéns à sua sogra (também fiquei boquiaberto com o acontecimento) e no fim, para se desculpar pelo brulho que ele e a sua família fizeram, destribuiu uma fatia de bolo pelos clientes que se encontravam nessa sala, roubando o negócio das sobremesas ao restaurante. No fim, fui agradecer-lhe e disse-lhe que também fazia anos, do que resultou uma simpática conversa. Dizia ele, e com razão que os nortenhos são de uma disponibilidade tremenda.
Desta viagem, resultou uma percepção que, na verdade já tinha. Portugal, recorrendo à linguagem gestaltista, não funciona como um todo, antes como uma soma das partes. As guerras bairristas, umas históricas, outras fruto da exposição mediática de alguns agitadores de massas, somadas à centralização governativa, tiram a tranquilidade e a coesão a um país que tinha tudo para ser, enquanto um todo, Património da Humanidade, tanto pela sua história, como pela sua beleza.
Pena que o português seja, por norma, de fraca auto-estima no que concerne à sua Pátria e que prefira recorrer à expressão que, na minha opinião melhor o caracteriza "a galinha da minha vizinha é sempre melhor do que a minha". Não é verdade. Pode funcionar melhor (dando ovos de melhor qualidade, seguindo a metáfora do ditado popular), mas não é melhor. Não temos nada por que nos envergonhar e basta que se dê uma volta pelo País para o constatar.



veículo oficial da viagem


Porto



Viana do Castelo



Ponte de Lima




Gerês


Peneda

sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Zagreb, Croácia

Uma excelente surpresa.
Na rua respira-se serenidade. A realidade de um país de enorme potencial - diria que já atingiu a fase cinética - não esconde a degradação, mas faz por transformá-la.
Se vemos prédios devolutos em grande quantidade, o olhar prende-se nos jardins impecavelmente cuidados.
Zagreb espreita, cada mais mais descomplexada, para o desenvolvimento do mundo ocidental.
O interesse pela cultura - essa sim, uma enorme surpresa - manifesta-se nos edifícios imperiais que recebem óperas ou teatros.
Impagável, o sorriso afável de um povo que partilha connosco o gosto em receber.
O passado recente que agastou o país, começa a ser visto como um marco histórico, que já la vai. Isso vê-se na geração mais nova. Passeiam-se - elas especialmente, ou pelo menos foi para aí que o meu olhar tendeu - com a elegância de quem se recenseou na cidadania do mundo, emancipados ainda muito jovens, enquanto país e povo independentes, sem medo de se imiscuir no quotidiano conservador do mundo ocidental, que ilumina Zagreb e toda a Croácia com os seus flashes, sempre de máquina em riste.
Num mundo cada vez mais global, mas nem por isso menos introvertido, os países da Europa Central e de Leste são uma saudável lufada de ar fresco. Espreitam na janela, do desenvolvimento com o sorriso apaixonado de quem nada teme, com vista solarenga para o Mundo.



terça-feira, 25 de Março de 2008

Tavira

"Algarve é turismo em massa. Algarve é fazer compras a preços para ingleses. Algarve é procurar um cantinho para pôr a toalha na praia... Algarve é Allgarve".
Algarve - e a anáfora não é acidental - não tem que ser isso.
Tavira faz parte daquilo a que chamo de "outro Algarve".
As praias, de extenso areal (mesmo assim, nada que se compare com a realidade há alguns anos atrás) oferecem-nos, dum lado o mar e, do outro a Ria Formosa. Para lá chegarmos, podemos ir no velhinho comboio da praia do Barril, de barco para a Terra Estreita ou para a Ilha de Tavira ou de carro, para as praias na zona Mantarrota ou Altura. Para quem tem o seu próprio barco, as praias a que tem acesso são indescritíveis.
Desde que me lembro que passo lá férias e tenho assistido à evolução que o Concelho tem vivido. O turismo que recebe, foge ao turismo massificado e ruidoso, que descaracterizou o Algarve, ao ponto de o transformar em Allgarve.
Diria que, se Allgarve representa um distrito alterado e transformado para satisfazer as exigências do cocktail turístico que recebe, então Tavira ainda se mantém fiel ao velhinho Algarve, hoje cingido a um tecido subcutâneo da grande camada geográfica que o Allgarve reveste.
Quando viajo ou dou um simples passeio, procuro conhecer destinos que se tenham mantido fiéis a si próprios. É cada vez mais difícil, bem sei, mas Tavira conseguiu-o.




o velhinho comboio da Praia do Barril


Centro da cidade


Santa Luzia, zona piscatória


curvas e contra-curvas da Ria Formosa

sábado, 15 de Março de 2008

Ljubliana, Eslovénia




Chego à capital da Eslovénia sem a mínima ideia do que me espera.
A noite já vai longa e os hostels estão cheios. Passamos por vários repletos de juventude. A cidade promete.
Por fim, lá descobrimos um. Ficam-nos com o passaporte... a ideia não nos agrada mas compreendemos. Estamos na Europa em potência.
A caminhada matinal leva-nos a passar pelo rio Ljubjanica. A cidade, limpa e organizada acolhe jovens e as línguas variadas misturam-se com os risos. É isto que um viajante pede...
A cidade, como o país tem vindo a ganhar a sua identidade desde os anos 90, deixando apagados (ou pelos menos escondidos) os vestígios da dependência jugoslava. Quem olha para Ljubliana, não vê como uma cidade da ex-Jugoslávia, antes como uma mini-cidade, de enorme encanto.
A comunicação é fácil, os eslovenos que lidam com os turistas falam inglês sem dificuldade.
Do alto do castelo Ljubljanski Grad, além de uma estonteante paisagem verdejante, avista-se uma cidade organizada. As pontes pedestres que atravessámos, são agora uma agradável visão.
A cerveja, sempre uma referência para um viajante europeu, tem uma tonalidade alaranjada e uma grande vantagem - podemos ir à nossa vida, que quando voltarmos ela permanece inalterada, não morre como a nossa.
Agora que escrevo depois de ter percorrido a Europa, olho para Ljubliana e para o Lago Bled, também na Eslovénia, e tenho um imenso desejo de percorrer este país de uma ponta à outra. Embora já aberto ao Mundo e comece a ser "invadido" pelo turismo, ainda lhe resta um espaço para o mistério. E haverá sensação melhor para um viajante do que partir em busca do mistério?

sábado, 26 de Janeiro de 2008

Nice, França




Quando digo que o meu transporte favorito para viajar é o comboio, as pessoas ficam boquiabertas. Calculo que nunca tenham atravessado a Côte d'Azur de TGV. É daquelas viagens em que só nos podemos queixar de que o TGV é demasiado rápido.
Nice é uma cidade em que luxo e lazer andam de mãos dadas.
Disseram-me que há uns anos, na praia, estendiam um enorme tapete verde para evitar as incómodas pedras que me fazem encher de orgulho pelas nossas praias de vasto areal.
Viajar é absorver tudo o que nos envolve e Nice poderia ter como slogan "A Vida é Bela". O nível de vida impede um turista pé-rapado, como eu que a visitei durante o inter-rail, de pernoitar mas o que absorvemos durante um dia dá-nos energia para as longas e cansativas deslocações que ainda nos esperam.
A água transparente e a enorme massa humana são ainda mais surpreendentes vistas de um miradouro, onde ainda nos podemos cismar com os luxuosos iates e veleiros atracados na marina.
A riqueza que se evidencia na cidade - e na Côte d'Azur em geral - reporta-nos para um mundo paralelo, bem diferente da realidade, sem dúvida.
Se numa viagem procuro conhecer a verdadeira cultura que me acolhe e fugir às ofertas meramente turísticas, em Nice a tarefa não podia ser mais fácil. O que vemos enquanto turistas é a cidade, na sua essência, luxuosa e encantadora.
Não sendo uma daquelas grandes cidades europeias, históricas e culturais, é uma cidade de sonho, sem dúvida.

segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

Feliz Natal

É habitual, nesta quadra, recebermos mensagens com textos enormes, mas o que desejo é muito simples: Um Óptimo Natal para todos e que o ano que se segue seja pródigo em viagens, em todos os planos da vida, de preferência para destinos cada vez melhores.


Beijos e Abraços para todos!

Nuno

sábado, 3 de Novembro de 2007

Horta, Ilha do Faial





O barco aproxima-se do porto da Horta.
Entre as fotografias e a agitação dos mais apressados, que não conseguem gozar da serenidade que os Açores nos transmitem, a curiosidade e a vontade de chegar aumentam ao mesmo ritmo com que o sol se destapa e ilumina a ilha.
Penso nos lugares paradisíacos que já conheci, e pergunto-me em que posição vai ficar a Horta no ranking que as minhas recordações foram definindo, mesmo sabendo que não tenho o hábito de hierarquizar as minhas vivências.
Os muros baixos e desgastados, bem como o chão do porto, podiam ser iguais aos que já conheci nos Açores, não fossem os desenhos, uns mais inspirados que outros, que os privilegiados timoneiros e tripulantes foram pintando na doca.

O pôr-do-sol torna o mar num imenso espelho que reflecte os cascos dos barcos e as fotografias, mesmo que tiradas por um absoluto amador, são todas elas dignas de um postal.
Não vale a pena explorar os diferentes modos que a máquina tem para fotografar, porque a Natureza faz o trabalho sozinha, não precisa de ajuda das novas tecnologias.
As comemorações da Semana do Mar aproximam-se e o cocktail linguístico, a que Portugal já se habituou, é cada vez mais recheado.

Pela primeira vez desde que estou no arquipélago, deito-me na areia. Escura e densa, acompanha-nos até casa, teimosamente colada ao corpo e às toalhas.
O tempo tem sido a grande surpresa, e das quatro estações que se espera conhecer durante um dia nos Açores, só o Verão nos recebeu, desde que chegámos ao Faial.

O Peter Café funciona como uma espécie de Embaixada do Mundo na Horta.
O seu famoso gin tónico, sem querer fazer publicidade, é tão especial, que passei a gostar da bebida.
Os galhardetes pendurados, oferta dos visitantes, demonstram a popularidade e universalidade deste pequeno espaço, de grande dimensão na imagem da cidade.
No segundo andar, encontramos uma exposição de impressionantes desenhos em dentes de baleia. Uma enciclopédia ilustrada da história da ilha, na prática.

A Semana do Mar começou e com ela, o espírito boémio dos homens e mulheres do mar. O Clube Naval vê-se em permanente festa e esta boa disposição constante é a despedida ideal, depois de duas semanas de total encanto com o esplendor e beleza dos Açores, mesmo tendo a visita ao Faial sido pouco aprofundada.
O sossego, o verde e o azul dos Açores, são o zénite de tudo a que alguém que vive em grandes cidades está habituado.
Chego à conclusão que quem planeia uma viagem, tem que colocar os Açores no topo das prioridades.
A língua portuguesa é muito rica, mas insuficiente para descrever este arquipélago, que no feliz ano de 1427 os portugueses, comandados por Diogo de Silves tiveram a fortuna de descobrir, aqui perdido no meio do Atlântico.

terça-feira, 2 de Outubro de 2007

África Acima, de Gonçalo Cadilhe




Depois do sucesso das fantásticas narrativas de histórias e estórias, em Planisfério Pessoal e A Lua Pode Esperar, Gonçalo Cadilhe ofereceu-nos este sublime livro, da editora Oficina do Livro, sobre as suas ínfimas peripécias no planeta Africano, aquele que os viajantes mais experimentados consideram o mais entusiasmante e desafiante de todos os planetas.
Eu devo ter sido dos primeiros a comprá-lo, logo em Maio e, assim como o autor, também o livro fez uma larga viagem, de mão em mão.
A qualidade da escrita de Cadilhe faz-nos sentir, também nós a negociar com os guardas das fronteiras, a atravessar "estradas" em condições impensáveis em carros nas mesmas condições, a sofrer com o calor abrasador. Permite-nos, com a qualidade das descrições, imaginar o grandioso mundo que ele vai conhecendo e invejá-lo. E é essa inveja que Cadilhe não entende. A actividade que tem, tem-na porque lutou para arranjar meios e apoios para percorrer o Mundo e porque, claro tem este talento especial para a escrita. E viajar não tem que se ser só lazer. Não o é, seguramente da forma como ele o faz:

"É este o meu projecto: atravessar África. Prosseguir do Sul para o Norte utilizando as estradas do continente, recorrendo aos transportes públicos, aos autocarros maltratados pelos anos, aos comboios que ainda andam, pedindo boleia, viajando com as pessoas da terra - em terra onde estiver, farei como vir. Excluo o transporte aéreo, voar sobre África não é viajar por África. Aliás, voar não é viajar".

Consegue facilmente, a partir deste excerto, imaginar-se as peripécias, as aventuras, as surpresas e os sustos que se foram sucedendo durante a viagem. Para saber mais, só mesmo lendo. Será certamente uma actividade mais rápida e cómoda do que os oito meses, quinze países, 27 000 quilómetros e 50 000 palavras depois resultaram em África Acima. Deixo uma citação de Gonçalo Cadilhe que retirei há tempos de uma das suas crónicas na revista Única do jornal Expresso:

" A solidão do viajante é a solidão do palhaço: a de reservar para si toda a tristeza que lhe vai na alma, e de entregar aos outros a máscara da alegria."

Gonçalo Cadilhe, in Única, 6 de Abril de 2007

quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

Outro Blog

Não que a paixão pelas viagens tenha perdido intensidade, pelo contrário, mas resolvi criar um novo blog que poderão visitar em http://digoeu.wordpress.com

Criei o blog porque, infelizmente não tenho viagens para relatar todos os dias e o "digoeu" surge, assim, como complemento a este, com os mais diversos assuntos.

Tenciono continuar a alimentar o outrascoordenadas durante muito e muito tempo e ainda tenho algumas cidades para ir descrevendo. Enquanto este, o meu primeiro contacto com a blogosfera, vai evoluindo ao ritmo que as viagens imperam, devagar e com muito para contar, o outro vai sendo o meu entretém no dia-a-dia, enquanto vou sonhando com a próxima viagem.

Boas viagens, digo eu...

terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Pico, Açores









31/07/07

Sento-me numa varanda totalmente rodeada por árvores, enquanto leio o Sul do Miguel Sousa Tavares. Estou a acabar o capítulo sobre o Alentejo e imagino os tortuosos 40º que se sentem no continente e os assassinos 50º que assolam Sevilha e as Canárias, por exemplo. Não posso deixar de pensar "que bem que se está nos Açores".
Aqui em S. Roque o ar está fresco. Na verdade estamos praticamente dentro das nuvens.
Ainda estou a digerir tudo o que vi em S.Jorge e a inquietação é enorme. Vejo nos guias que fomos arranjando durante a viagem que não faltam locais para visitar.
Estou na ilha que avistei de S.Jorge durante os cinco dias que lá passei.
A neblina que de lá parecia ser constante, confirmou-se durante todo o dia.
O misterioso céu e clima açoriano, parece acentuar-se ainda mais nesta ilha, também ela toda pintada de verde.
Depois de experimentar o inhame e ainda sem ter conseguido encontrar a cerveja Especial de que tanto me falaram, preparo-me para explorar a ilha nos próximos dias. Madalena e Lajes do Pico, repletas de lagoas, furnas e até de verdadeiros Mistérios que constam nos guias.




1/08/07


De carro, atravessamos a ilha e tudo o que vamos vendo merece ser fotografado e até pintado, para quem tem esse talento.
As vacas passeiam descontraidamente e cortam a estrada aos carros. Aproveito para observar e absorver tudo o que me rodeia.
É tudo um manto verde aos altos e baixos e, ao fundo, o manto azul do Atlântico.
Não há pressa... As estradas estão impecavelmente arranjadas, e os separadores a que estamos habituados, aqui são substituídos por hortênsias e pela mais variada vegetação.
As cagarras, autênticos pássaros falantes, vão acompanhando a nossa viagem.
Vamos parando nos miradouros para ir observando as povoações lá em baixo. Privilegiados os que lá moram que estão abraçados por toda esta magnífica Natureza.
Também aqui há as piscinas naturais, mas o tempo encoberto não é o mais convidativo para dar um mergulho.

O senhor Joaquim Mello é um contador de histórias.
Foi construtor naval nos EUA quase toda a vida e agora tem o seu museu onde expõe as suas réplicas de barcos.
Numa mistura de português e inglês, conta-nos a história de cada um dos barcos.

A cidade das Lajes, que visitamos ao fim da tarde, é a mais jovem e dinâmica da ilha.
Bares e lojas sucedem-se. Os clientes são jovens. Os que não são aparentam ser.









A caminho da Madalena, paramos no Cais do Mourato, onde a população se reúne para ver um cachalote que provavelmente se perdeu do grupo.
Dois ilhéus, um Em Pé e outro Deitado, perdidos no oceano, entram na fantástica tela que é um fim de tarde visto daqui.
A Madalena também recebe a juventude nas esplanadas e, pela primeira vez desde que estou nos Açores vejo um enorme aglomerado de gente, coisa rara por aqui.



2/08/07

A piscina natural serve de ponto de encontro para as famílias dos emigrantes.
Os mais novos já só falam inglês, os mais velhos tentam fazê-lo, numa divertida mescla de idiomas.
Os peixes nadam connosco. Habituaram-se à presença humana.
Cá fora o sol e as nuvens trabalham por turnos e vão alternando entre eles.

Na hora da despedida, fica vontade de voltar. A ilha é pequena mas ainda ficou muito para ver. O nevoeiro traçou-nos o roteiro e tapou o que fica por ver.
Do pico, só a imagem que tive de S.Jorge. As nuvens que o cortam ao meio, não deixaram ver mais para cima.








sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

S.Jorge, Açores









A curiosidade inquietava-me à partida para S. Jorge. Não conheço quem lá tenha ido e não se tenha fascinado.
Os habituais atrasos dos voos SATA, consequência do monopólio que têm no percurso inter-ilhas nos Açores, não surpreendem ninguém e são um presságio para a distância turística em que os Açores se mantêm.
É esse isolamento do turismo massificado que permite que mantenham a sua beleza natural e genuína, coisa rara hoje em dia.
Depois de uma breve escala na Ilha Terceira, parto no pequeno avião que faz o percurso entre as ilhas açorianas.
O estado do tempo era uma incógnita e nos Açores, já se sabe, qualquer das quatro estações pode ser vivida num dia.


S. Jorge é uma pequena ilha aos altos e baixos pintada em tons de verde.
Conhecida pelas suas fajãs*, oferece-nos fantásticas piscinas naturais que são autênticos aquários, onde nadamos rodeados de peixes que não se incomodam minimamente com a nossa presença.
A ilha tem uma grande variedade de circuitos pedestres, que tem nos turistas franceses acérrimos aficionados.
É em Velas, de frente para o imponente Pico, que a ilha se centra, mas os seus segredos e encantos estão por todo o lado. O mais comum é alugar um carro e explorar mais comodamente os encantos que vão aparecendo por onde menos se espera.
O Parque Natural das Sete Fontes, onde encontramos estranhos porcos do Vietname e engraçados gamos, algumas fajãs, como a do Ouvidor, a calma cidade da Calheta são alguns locais imperdíveis que vamos encontrando no caminho.


S.Jorge é um exemplo de que o Homem pode viver em conformidade com a Natureza, se cada um souber ocupar o espaço que lhe é designado.
Não posso deixar de pensar como seria um Mundo onde o verde e o azul predominam, onde as estradas que percorremos estão delimitadas por hortênsias e onde nadamos em águas transparentes, ao lados de vastos e coloridos cardumes. Um mundo igual a S.Jorge...
Lá em cima, à noite, os cagarros** mantêm animadas conversas e alguns parecem crianças a chorar.



* Fajã - terras baixas, à beira-mar, resultantes de materiais desprendidos por quebradas ou acumulados na foz de uma ribeira e assentes quase sempre num banco de lava muito resistente.São extremamente férteis e em S.Jorge encontramo-las habitadas e cultivadas.



** Cagarro - ave marítima característica das ilhas dos Açores. uma das aves mais antigas do Planeta, cujos cantos nocturnos se assemelham ao choro das crianças.


Como ir: de Lisboa, em voo Tap e com escala na Ilha Terceira. Demora mais a espera pelo voo na Terceira do que a viagem (cerca de três horas de espera entre a chegada do voo de lisboa e o voo SATA - sempre atrasado- que segue para S.jorge, enquanto que a viagem ao todo demora cerca de 2h30min).
Para quem for a mais ilhas deste grupo, a travessia de barco é rápida, sem atrasos e proporciona-nos vistas fantásticas - autênticos postais

O que ver: o ideal é alugar um carro e ir à aventura. as fajãs e piscinas naturais são obrigatórias.

Onde ficar: em Velas há várias residênciais e os hotéis: Hotel (R)São Jorge Garden ***, S. Jorge. Hotel-Apart. Barracuda *** este não me lembro de ter visto mas está na net...

O que comer: ao contrário do que esperava, há muito poucos pratos típicos nos restaurantes. em Velas pode ir-se ao Açor, com bons peixes grelhados; de carro, na serra, vale a pena parar no Ponto de Encontro (deve ser um franchising) onde podemos comer a já rara carne de alcatra e na Calheta ( o outro concelho da ilha além de Velas ), o restaurante Amigos também nos oferece um variado buffet ao almoço.

sábado, 7 de Julho de 2007

Couchsurfing





A ideia veio para ficar.

Couchsurfing é uma comunidade de viajantes que disponibilizam ou procuram uma cama, um sofá ou até mesmo o chão. Os sites da especialidade contam com uma base de dados enorme com proucura e oferta em quase todo o Mundo.

A ideia agrada-me. Quem procura um sofá não tem que oferecer o seu, embora quase toda a comunidade esteja receptiva às duas modalidades.

É o modo ideal para visitar as cidades que só com guia estamos seguros. Quem se oferece para receber disponibiliza-se sempre para dar uma visita guiada pela cidade.

O tempo de estadia é geralmente estipulado pelo anfitrião e costumam ser aluguns dias, embora muitos deixem o visitante ficar o tempo que quiser.

Os membros da comunidade têm todos eles que disponibilizar a sua morada ao site para que todos os seus dados sejam confirmados. Quem já experimentou, diz ser absolutamente seguro e a confirmação que é feita à morada dos membros, será um factor importante para que se possa surfar à vontade... num sofá.

Ficam aqui os três principais sites da especialidade. Boas surfadas!


http://www.couchsurfing.com

http://www.hospitalityclub.org

http://www.globalfreeloaders.com


sexta-feira, 22 de Junho de 2007

Viena, Áustria














O cinzento do céu quase se confunde com a alegria nublada dos habitantes da capital austríaca.
Assim como o sol, também a felicidade espreita timidamente na "Cidade dos Músicos".
A grandiosidade,essa, ninguém lha tira. A Catedral de Saint Stephan, por exemplo, não deixa ninguém indiferente.
Andar pelas ruas de Viena é experimentar a classe da cidade, é observar o luxo, é atravessar a estrada fora da passadeira e sermos olhados com espanto.
O civismo aqui atinge o seu máximo.
Toda a elegância da cidade acrescida à beleza do Danúbio, tornam-na uma referência de distinção, requinte e, claro preços muito elevados.
Os espaços verdes impecavelmente tratados multiplicam-se e a chuva frequente não faz mais do que dar-lhes o brilho que merecem.
Cidade com variados doces tradicionais, podemos experimentá-los numa espécie de tasquinhas da doçaria.
A visita não teve a longevidade suficiente para conhecer o muito que a cidade nos oferece.
É sem dúvida uma cidade magistral, cheia de história, cultura, luxo e chuva que vale a pena visitar com tempo.

quinta-feira, 14 de Junho de 2007

segunda-feira, 11 de Junho de 2007

1000 visitantes

Aproveitei o simbolismo de ter passado os 1000 visitantes, para fazer um pequeno balanço dos quase dois meses de vida deste blog.
Não podia ser mais mais positivo.
Desde logo, pelo orgulho de ter visto o meu texto sobre Florença publicado no suplemento Fugas, do jornal Público de dia 9 deste mês.
No mês anterior, no dia 17 de Maio, o blog recebeu o prémio "Best Blog Of The Day", atribuído pelo blog americano "Blog Of The Day Awards". Na altura agradeci-lhes a distinção e escrevi que o prémio mostrava a universalidade da paixão pelas viagens. Até com o tradutor mediano que disponibilizo no blog, o blog conseguiu ser interessante para quem não domina a nossa língua, o que também se explica pela beleza das fotografias.
Blog Of The Day Awards Winner

Quanto às fotografias, parte do seu encanto deve-se à beleza do que foi fotografado e aos meus companheiros de viagem, Fernando e Sidónio, responsáveis por boa parte das fotos que acompanham os meus textos.
Mas o blog foi também importante nas decisões que tenho tomado desde a sua existência. Desde logo, estar a preparar-me para mudar de curso, para trocar os números pelas letras, que me deixam mais à vontade.
Foram dois meses que espero se prolonguem por muitos anos. Era sinal que tinha muito assunto para escrever e não vejo melhor tema do que as viagens. Até porque para escrever sobre viagens, tenho que as fazer...
A todos os que têm passado pelo Outras Coordenadas, em especial para os que lêem e comentam os meus textos, muito obrigado e voltem sempre!
Boas viagens!

sexta-feira, 8 de Junho de 2007

Veneza, Itália







A primeira ideia que se tem de Veneza é a de uma cidade romântica, onde os casais passeiam nas gôndolas.
É muito mais do que isso. A sua beleza, embora algo camuflada por alguma sujidade, merece uma distinção menos redutora.
O mais difícil é destacar o que de melhor a cidade tem para nos oferecer. Toda a cidade choca-nos com a sua beleza inquietante.
Até os pombos, um animal tão mal-amado, aqui são encantadores. Não para mim, mas para a maioria dos turistas, em particular os Asiáticos.
Os canais que nos envolvem e nos rodeiam prendem-nos o olhar. Chamam-nos a atenção pelo encanto que dão à cidade e porque nota-se que já estiveram mais limpos...
A cidade, aliás, deve alertar-nos para o nosso papel na deterioração do Planeta. O nível das águas tem subido e é já uma ameaça para Veneza. A água já sobe alguns passeios e degraus.
Mas a verdade é que estas preocupações só nos despertam a atenção devida depois de digerirmos tudo o que lá vimos. O encanto e fascínio cegam-nos e desviam-nos a atenção. Não é difícil, aliás, distrairmo-nos enquanto observamos a cidade. Em toda a parte encontramos algo que nos encanta e nos leva a tirar mais uma fotografia.
Aqui damos por nós a deambular. A passear sem destino pelas ruelas e pontes, a observar o diferente tipo de turistas que por lá caminham.
Entre um e outro encontrão que vou dando nos infinitos turistas que por lá andam, a magia de Veneza leva-me a imaginá-la noutros tempos e como seria se fosse menos movimentada.
Não imagino como seria mas sei como é hoje, inesquecível e inundada de turistas.
Na hora da despedida, fica o encanto e a certeza de que a visitei no pior mês possível, Agosto.

quinta-feira, 31 de Maio de 2007

San Sebastian, Espanha - Quando as cores se escondem no nevoeiro


















A vizinha Biarritz roubou-lhe os turistas que procuram passar férias em praias famosas. E ainda bem.
Não se pode dizer que tenha sido esquecida pelos turistas. Há um turismo significativo mas que ainda nos deixa circular à vontade pela cidade.
O nevoeiro constante tenta esconder a beleza desta cidade basca. Não consegue. Pelo contrário, dá-lhe um toque especial e memorável.
Imagino-a quando chove. Aí as cores que a pintam e se escondem ganharão brilho certamente.
À noite, entre os encontros na praia e uma especie de Bairro Alto mais asseado e mais silencioso, tem que sobrar tempo para um passeio ao longo da marginal.
A calma e a beleza que a cidade nos oferece servirão de inspiração a muitos artistas certamente. Do alto da cidade tem-se uma fantástica, ainda que turva imagem da cidade.
Uma surpreendente quantidade de pessoas faz jogging pela cidade, demonstrando bem a tranquilidade e bom ambiente que se vive em San Sebastian. O senhor que toca saxofone num pequeno túnel por onde todos passam, dá-lhe um toque romântico.
A "Bahía de la Concha" como que abraça a pequena Ilha de Santa Clara.
Imagino-me a passar aqui uma temporada. A calma, a beleza, a praia, o mistério que o nevoeiro causa, deixam saudade quando se abandona a cidade.
Vale a pena visitar San Sebastian. Provavelmente mais no Inverno do que no Verão até...

quarta-feira, 23 de Maio de 2007

Florença, Itália - Única e Inesquecível





Capital da província e região da Toscânia, tem tudo para ser considerada uma das cidades mais bonitas e singulares do Mundo.
Como em qualquer grande cidade europeia, visitá-la em Agosto obriga quem a visita a esperar nas longas filas para entrar em alguns dos seus magistrais museus. É uma espera que acaba compensada mas que pode ser evitada se houver oportunidade de a visitar em meses em que o turismo é mais moderado.
Assistir a uma missa no grandioso Duomo que conta com alguns vitrais da autoria de Donatello, passear na única Ponte Vecchia, visitar o museu Uffizi torna-se obrigatório para quem visita a cidade.
Do Miradouro Michelangelo, avista-se a cidade em todo o seu esplendor. Uma visão inesquecível que nos deixa mergulhar num mundo de fantasia. Na cidade que avistamos já habitaram algumas das figuras mais ilustres da história como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Dante, Maquiavel ou Galileu. Como seria o Mundo nas suas épocas? A cidade que hoje se enche de turistas, enchia-se dos maiores génios.
No século XV, Florença era governada por uma família de banqueiros, os Medici, que a tornaram na cidade que hoje é considerada o berço do Renascimento.
Não deixa de ser notável e raro que uma grande cidade mundial mantenha o seu centro quase inalterado desde o século XV.
Em português utiliza-se uma palavra parecida com "toscânia", tosco, para designar coisas mal feitas. Dificilmente haverá duas parecidas mas tão diferentes no que designam. A Toscânia, e em particular Florença, de tosco não têm nada. Pode dizer-se, isso sim, que se aproximam da perfeição.
Florença é certamente daquelas cidades que tem tanto de imperdível como de inesquecível.
Para quem gosta de cidades grandiosas, históricas e imponentes, Florença é tudo isso e muito mais. Para quem não gosta de cidades marcadas por grandes enchentes de turistas... vale o sacrifício.

segunda-feira, 7 de Maio de 2007

A Viagem





O objectivo era ambicioso: visitar cerca de onze países num mês, com a mínima programação prévia, gastando em média 20€ por dia.
A primeira viagem é igual à que a maioria dos mochileiros portugueses faz: de Lisboa a Hendaye. Daqui seguimos para uma casa fantástica, numa vila cujo nome não consegui decorar algures para os lados de Toulon. O primeiro poiso, depois de dois dias de viagem.
O conforto que encontrámos, sabíamos que não se repetiria tão cedo mas também, ainda no início da viagem, queríamos era de viajar de mochila às costas e dormir onde fosse mais barato , numa espécie de procura de um desconforto agradável.



Da cidade que se seguiu, Nice, ficou na memória um banho de sol sobre incómodas pedras na praia e o luxo das paisagens e dos turistas que por lá passam.
A viagem de TGV a percorrer a Côte d'Azur é única.



A chegada a uma das cidades que mais me entusiasmava, Veneza, deu-nos a conhecer uma figura de encontraríamos em quase todas as cidades, a do caça-turistas. O hostel em dormimos foi-nos indicado por um deles. Aqui não dormia ninguém que não se fizesse acompanhar de uma pesada mochila. Da cidade fica o encanto e a certeza de que a visita foi no pior mês possível, Agosto.



Já acompanhados de uma brasileira, chegamos a Florença, uma cidade grandiosa e plana. A comparação com os altos e baixos da Cidade das Sete Colinas foi inevitável, tal era o número de pessoas que passavam de bicicleta, o que é mais difícil em Lisboa. A grandiosidade do Duomo, onde assistimos a uma inesquecível missa, e a cidade vista do seu ponto mais alto tornou fácil a tarefa do fotógrafo de serviço na ocasião. Aqui separávamo-nos da nossa nova amiga brasileira.
De Bari apanharíamos o barco para a Grécia. A calma e simpatia dos locais fazia esquecer a antipatia de alguns habitantes das duas cidades que havíamos deixado para trás.
Vale a pena falar do barco que nos transportou. Um mini-cruzeiro onde havia culturas e idades para todos os gostos.



Em Atenas somos, uma vez mais recebidos pelos caça-turistas. O mais eficaz leva-nos a um terraço onde nem uma mochila cabia e sugere que durmamos lá. Não o fazemos mas acabámos por nos hospedar num prédio muito antigo onde ele nos levou. Depois de receber a sua comissão despede-se e segue à procura das próximas presas. Agora é um brasileiro que nos acompanha na estafante subida à Acrópole, debaixo de 45ºc.



Mais uma viagem de barco, já sem o nosso amigo de Rio de Janeiro, rumo à Ilha de Hydra. Nunca mais encontraríamos sossego igual nem noites tão baratas... por 1€ cada um alugava durante o dia a espreguiçadeira que à noite fazia de cama. Fica a saudade de uma ilha onde apenas circulava um carro, o do lixo, e onde a locomoção fica a cargo de burros.


Mais de dois dias de viagem separavam-nos da próxima cidade, Zagreb. Uma cidade impecavelmente arranjada habitada por gente cuja humilde simpatia fica na memória e de onde seguimos para uma curta visita a Split.


Aqui a figura do caça-turista ganha uma dimensão sem precedentes. Autênticos predadores que nem escolhem a presa. Fica a recordação de uma cidade banhada pelo fantástico Mar Adriático. No regresso, na paragem em Zagreb, conhecemos um casalinho tuga que havia de nos acompanhar quase até ao fim da viagem.




O que nos esperava na Eslovénia, estava bem acima de tudo o que pudéssemos imaginar. A surpreendente Ljubliana e o inesquecível Lago Bled. Para o último, não há palavras que honrem a sua beleza.



Já em Bratislava, hospedámo-nos num hostel que parecia saído de um filme de terror. A cidade, cinzenta como quem lá habita, começa a ganhar uma forte dinâmica e a fazer parte do roteiro de muitos mochileiros. Depois de a explorar, aproveita-se o preço da dormida e a proximidade com Viena para visitar a capital austríaca sem mochila às costas.



Grandiosa, a cidade. E cara, o que leva a que a visita seja curta. Do regresso a Bratislava fica um problema na fronteira, atípico para uma capital da UE.



Daqui para Praga, uma cidade que marca quem por lá passa. A musicalidade, a juventude, a multiculturalidade... tudo o que nos oferece é bem-vindo. A saudade fica, ainda antes de se abandonar a cidade.



O segundo poiso, a segunda casa onde nos acolhem com a maior simpatia e hospitalidade, é no Luxemburgo, na casa dos tios de um de nós. A hospitalidade honrou a beleza do país. Todo ele é pintado de verde, que com a chuva ganha um brilho único.
Bruxelas serve de escala para o último destino.




San Sebastien, a cidade espanhola que o constante nevoeiro tenta minimizar e esconder a sua beleza. Não consegue, pelo contrário, dá-lhe um toque único e inesquecível.









O regresso é sempre o pior momento de uma viagem. Fica a certeza que depois deste inter-rail, o mundo dos mochileiros ganhou três novos membros que anseiam pela próxima viagem.

domingo, 29 de Abril de 2007

Porque viajamos?

Tenho recolhido testemunhos de alguns visitantes do blog. Viajantes que tal como eu anseiam pela próxima viagem. Pelo momento de voltar a pôr a mochila às costas e partir.
Pergunto-me o que nos leva a ansiar pela próxima viagem. Será que é apenas conhecer mais e crescer mais? Ou será que o que pesa é a saudade que ficou da última viagem?
Saudade, essa palavra que só existe em português mas que todos sentimos. O sentimento que nos move e nos deixa insatisfeitos. O que sabemos e conhecemos nunca nos chega.
Talvez o que nos obrigue a conhecer mais seja a insatisfação. O nunca estarmos satisfeitos. E será que não é a saudade que nos deixa assim. O que sobrou de tudo o que já vivemos, o que nos soube a pouco e nos deixou ansiosos pela próxima viagem.
Afinal o que somos é o que vivemos, o que conhecemos, o que nos ensinaram.
Eu anseio pelo dia em que volte a sentir o peso da mochila nas costas. E se calhar é porque não me contento com o que sei, com o que conheci.
Pode ser esta insatisfação provocada pela saudade, por tudo o que achamos que não foi suficiente?
A explicação para tudo o que nos move pode ser simplesmente sentirmos o vazio de tudo o que deixámos para trás. Tudo o que podíamos ter feito e não fizemos. Acredito que a isso, ao tal vazio, podemos chamar saudade. Não do que fizemos mas do que sabemos que podemos fazer. Poderemos nós ter saudades do que ainda não fizemos? Creio que podemos, se isso completar tudo o que fomos deixando .
Que a tal saudade, e que me perdoem a insistência, seja movida pela insatisfação e nos mova ao próximo passo, mais um no caminho infindável do nosso crescimento.

quinta-feira, 26 de Abril de 2007

Luxemburgo






Imagine-se um pequeno país todo pintado de verde. Um país habitado por verdadeiros poliglotas, onde se assiste a um autêntico cocktail cultural. Esse pequeno país é o Luxemburgo.
Tem a grande vantagem de estar muito bem situado geograficamente e não pode servir de desculpa a quem passa por lá a falta de tempo para o visitar. Num dia vemo-lo quase na íntegra. Em dois dias digerimos o que vimos.
Para quem o visita, um momento alto e usual é o aparecimento da chuva. Aquele verde que pinta o Luxemburgo passa agora a dar-lhe brilho.
Imagine-se um país que contraria a tendência sedentária do Homem de hoje. Será certamente este. Aqui vem-se à procura de uma vida melhor .
Pena que seja tão raro o Homem hoje viver em permanente viagem. Melhor seria se o fizesse não em busca de melhor qualidade de vida, mas sim na simples busca de uma vida melhor, de procurar incessantemente o seu lugar.
Creio que ninguém encontrará o seu lugar no Mundo. Lugar físico, entenda-se. Os que não procuram não encontram certamente e mesmo dos que o fazem, poucos se contentam e se fixam.
Não acredito que haja O país, A cidade, A vila, A aldeia. Seja o que for, a permanente insatisfação que caracteriza qualquer ser vivo, por preguiçoso que seja, não nos permite acomodar-nos. No entanto é o que fazemos.


terça-feira, 24 de Abril de 2007

Praga, República Checa






Todo o tempo é pouco para visitar a cidade dos cafés. Todas as palavras são insuficientes para descrever uma cidade que tem que constar na lista obrigatória de qualquer viajante.
Uma capital exemplar numa Europa que se quer moderna, dinâmica e global.
A pobreza que ainda se tenta esconder contrasta com a riqueza histórica que leva a que tantos visitem Praga.
Aqui respira-se o ar da juventude e da irreverência que nos caracteriza. Desde os que para aqui vieram estudar, aos que por cá passeiam. Todos eles deixam o seu contributo que, por pequeno que seja vai ajudando a cidade a aprender com quem também tem muito para ensinar.
Facilmente encontramos visitantes de todos os cantos do Mundo. Muitas línguas são audíveis.
Tento imaginar as experiências e as vivências de quem passeia pela cidade. Se são elas que nos enriquecem,então por Praga passeiam certamente das pessoas mais ricas que pode haver. Talvez seja dos poucos que vai mergulhando em pensamentos. Não é fácil abstrairmo-nos numa cidade que não para. Mesmo quem consegue, fá-lo de forma diletante. Há sempre algo novo a captar-nos a atenção e a afastar-nos dum mundo só nosso que vamos construindo e povoando onde, como no Mundo real, elementos vão morrendo enquanto outros nascem.
As distracções vêm sobretudo dos artistas de rua. Todos eles exibem uma licença obrigatória para que possam oferecer a sua arte aos privilegiados que passeiam pelas ruas de Praga. Uns cantam, outros tocam, outros pintam quadros. Este será daqueles sítios em que com meia dúzia de pinceladas se desenham quadros fantásticos. Não quero desvalorizar o trabalho dos pintores. Pelo contrário, invejo a habilidade com que fotografam com os seus pincéis. Sorte a dos que o conseguem fazer. Esses sim, deviam ser viajantes. Tudo o que de melhor o Mundo tem para nos oferecer devia ser honrado com a visita de quem melhor o descreve.

quarta-feira, 18 de Abril de 2007

Split, Croácia























A primeira imagem ao chegar à segunda maior cidade da Croácia, ainda antes de nos regalarmos com a beleza desta cidade inserida numa península em pleno Mar Adriático, é a dos caça-turistas.
Surgem como predadores trapalhões que nem escolhem a presa. Aqui a caça é feita a título individual. São predadores rivais que não chegam a precisar de disputar as presas, tal é o amontoado de turistas que procura uma brecha para passar para ir desfrutar as praias e centro histórico que a cidade tem para oferecer.
Longe vai o tempo em que, na era jugoslava a cidade funcionava essencialmente como porto e zona industrial, nomeadamente na área da construção naval.
Nas praias, qualquer caminhada se torna penosa, já que o chão que pisamos é constituído pelas malvadas pedras. Malvadas porque tornam até um simples banho de sol num prazer desconfortável. Não é o que se procura quando se vai de férias, este prazer desconfortável mas a verdade é que esta é das poucas queixas que a cidade pode receber.
Uma simpática senhora pede-nos desculpa por o cão de uma outra banhista estar a ladrar. É um povo muito simpático, o croata. Sabem que têm no turismo uma parte significativa da economia e acolhem os turistas de braços abertos, como que ouvindo as notas de kunas que trazem na carteira. Não será uma simpatia interesseira, será talvez um agradecimento pelo contributo que os turistas dão no crescimento deste país tão especial.
A visita foi breve, como breve terá que ser este post. Fica a sugestão, inclua a Croácia na lista dos seus destinos obrigatórios e aproveite para visitar Split.

terça-feira, 17 de Abril de 2007

Ilha de Hydra, Grécia





Paraíso ideal para quem queira fugir ao aglomerado de turistas nas ilhas mais populares.
A oferta para turismo é escassa, o que é sempre um bom sinal para quem quer passar uns dias calmos.
Aqui não se vêem carros. Apenas um, que recolhe o lixo. Vê-se, isso sim, muitos burros, um animal em extinção numa ilha singular.
Cada turista tem a possibilidade de ter uma praia só para si, se considerarmos que um pequeno pontão pode fazer de praia. Entre o cimento dos pontões e as pedras que nos vão agredindo os pés e nos deixam saudades (sentimento tão português) das areias das nossas praias, e não desvalorizando a caminhada sob um sol que sorri como se estivesse divertido a acompanhar o esforço de quem ousa procurar uma praia longe do centro, percebe-se que os banhistas se distribuam por toda a ilha, afastando-se pouco do sítio onde dormem.
Casas fantásticas que disputam o difícil troféu de melhor vista, grande parte propriedade de estrangeiros endinheirados, distribuem-se pela ilha.
A beleza de um fim de tarde, quando o sol se cansa, é memorável. Romantismos à parte, qualquer companhia serve para partilhar o pôr do sol. O sol desaparece, talvez até ele anseie pelo dia seguinte para iluminar uma vez mais a ilha de Hydra.
Seguem-se as estrelas e não posso deixar de pensar o quão privilegiadas são por conseguirem espreitar tudo o que a Terra oferece. Eu jamais serei tão privilegiado.
Haverá maior contentamento do que conhecer alguns dos paraísos que, espalhados pelo Mundo nos recebem, uns habitados por quem tem noção da beleza da sua terra, outros nem tanto, onde tanto se suspira, tantas queixas se fazem, tanto se inveja quem, se calhar também nos inveja. Outros mais desafortunados adormecem e acordam com a guerra que lentamente vai destruindo espaços que todos deviam conhecer.
O descanso que a ilha concede leva-me a pensar nisto. Por muito que viaje, que explore ou que caminhe, enquanto o faço há locais do Mundo que desaparecem, que são consumidos e destruídos por um Homem egoísta que nada sabe nem conhece mas que tudo quer controlar.
Talvez todos devêssemos ser viajantes, exploradores em busca incessante do melhor local para conhecer, sem nada alterarmos.
Esta ilha oferece-nos um bocado disso, mostra-nos que a ausência de interesses do homem, talvez fosse a única maneira de deixar tudo como está. E haverá paraíso mais grandioso do que aquele que permanece inalterado com o tempo?

Lago Bled, Eslovénia














Um local imperdível. Tudo o que existe encaixa na perfeição neste lago que, como um camaleão se altera, de estação em estação.
O verde absoluto quando o tempo assim permite é substituído por um branco que não podia ser mais colorido no inverno.
Aqui qualquer artista medíocre pintava um fantástico quadro. Qualquer patético escritor compunha a mais bela prosa, que automaticamente se transformava em poesia.
A ilha, uma igreja, transforma as remadas que se dão até lá, nos pequenos barcos que se alugam, em esforço fácil. Ninguém consegue ficar cansado quando se apercebe que está cada vez mais perto. E quem se afasta da ilha, de regresso à povoação pode dar-se por satisfeito por estar de regresso, não só da ilha, onde os turistas regressam à infância (os que já de lá saíram) tocando repetidamente o sino da igreja, mas também a terra, que disputa com a ilha aquilo que nenhum deles consegue vencer, o motivo que torna o Lago de Bled um sítio que todos têm que conhecer antes de planearem qualquer outra viagem.
Quase nem apetece escrever, quando as fotografias no mínimo igualam a escrita do maior dos poetas.
Por outro lado o Lago Bled merece ser honrado de uma forma mais elaborada do que o carregar num botão. Não serei certamente eu, mas quem escreve com a grandeza e com a expressão que quase tira o sentido à existência de fotografias (aqui todas elas são dignas de um postal) deverá honrar este paraíso escondido. Um dos muitos espalhados pelos cinco continentes, não sendo, seguramente apenas mais um. É um dos que tem de figurar nas compilações feitas por quem dá a volta ou Mundo ou gradualmente vai descobrindo as maravilhas que ele tem para nos oferecer.
Fica o conselho a todos os viajantes que acrescentem o Lago ao seu roteiro.
" A solidão do viajante é a solidão do palhaço: a de reservar para si toda a tristeza que lhe vai na alma, e de entregar aos outros a máscara da alegria."

Gonçalo Cadilhe, in Única, 6 de Abril de 2007

segunda-feira, 16 de Abril de 2007

Bratislava, Eslováquia










Capital do país, tem na proximidade com a Áustria uma importante referência na dinâmica económica da cidade.
Aqui pernoitam os turistas menos endinheirados ou mais poupados, que depois de pouco mais de uma hora de viagem de comboio, estão na capital do país vizinho. Os vizinhos austríacos, esses, vêm a Bratislava fazer as suas compras.
Do miradouro do Castelo de Bratislava, avista-se o verde e os moínhos que geram energia eólica da Áustria. A distância geográfica entre ambos os países, será talvez um dos poucos sinais de proximidade, que se opõe à distância cultural e económica.
É uma cidade a não perder para os mochileiros. Além de barata e próxima da Áustria, Hungria e também da República Checa, em Bratislava, encontram-se turistas jovens, que trazem a esta cidade ainda cinzenta e desconfiada uma nova dinâmica, um espírito novo.
As estátuas, referência da cidade, simbolizam figuras incontornáveis na história da cidade, desde o soldado ao turista com a inevitável máquina fotográfica. Outras, como que suspensas no ar, reportam-nos para um mundo imaginário. Talvez aquele em que dois países vizinhos não vivam realidades tão distintas.
Uma cidade que vale a pena conhecer.
Tudo é barato. Tudo talvez fizesse mais sentido se vivêssemos no início da década passada.